Lição 04 – O chamado à obediência

Por: Geisel de Paula

Texto base: Deuteronômio 5.1-10, 16-21, 29

  1. Eu sou o Eterno, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa dos escravos. Não terás outros deuses diante de mim.

Antes da Lei vem a graça. Eu vos salvei para que fossem meu povo. Como todo relacionamento, Deus começa se apresentando para o povo, para aqueles que ele quer se relacionar. Eu sou, Eterno, YHWH.

Existe uma dimensão demoníaca na idolatria, isto é, Satanás, que age por trás e através da idolatria, apesar de ter sido neutralizado e desentronizado diante da vitória de Cristo. O que se postula neste primeiro mandamento é o fato de que nada menos do que a totalidade de nossas vidas deve estar sob o senhorio de Deus. Conforme (Dt.11.16), existem quatro quedas consecutivas no caminho da idolatria: o engano do coração, o desviar-se, o servir a outros deuses e, finalmente, o prostrar-se diante deles. Feliz o homem que guarda seu coração no caminho do Senhor. Exigem-se vigilância e oração para evitar a queda. (o caso de Naamã – IIRs.5:18)). A última palavra do apóstolo João aos cristãos da Ásia Menor foi uma advertência contra a quebra do primeiro mandamento: “guardai-vos dos ídolos” (1 Jo 5.21). Este mandamento era tão importante e significativo para o apóstolo que a última frase da carta é uma afirmação de sua validade.

O aspecto mais importante de nossa fé não é quão intensamente cremos, mas em quem cremos. Você deve conhecer católicos mais devotos do que você nunca foi; ateus tão arraigados na ciência que não aceitam nada que seja sobrenatural; muçulmanos que servem Allah e Maomé, o seu profeta, com muito mais vigor que você. Oram cinco vezes por dia, jejuam durante um mês das seis da manhã as seis da tarde todos os dias no Ramadã e peregrinam até Meca pelo menos uma vez na vida. Tudo isso denota devoção, mas em um deus errado. E nós, que servimos o Deus certo, muitas vezes não fazemos o mínimo. Não adianta ter fé num barco furado. Você vai naufragar junto. Esse é o fundamento para todos os outros mandamentos. Os nove subsequentes e os outros 603 da Torah. Ele abrange o 2º, o 3º e o 4º mandamentos.

O erro dos israelitas e o nosso é que queremos arrumar um lugarzinho para esse Deus, mas com espaço para outras coisas também. O erro do idólatra é adorar a sua própria capacidade, esquecendo que somos insuficientes. Quando Moisés desce do monte ou da montanha, ele se depara com o quê? O povo negando o primeiro mandamento, ao construir um bezerro de ouro. Eles não acreditavam em Deus? Não tinham visto os sinais? O que aconteceu? “Ora, enquanto ele não vem, vamos fazer um bezerrinho aqui pra gente festejar”. Percebe? Quando Elias confronta o povo de Israel no Monte Carmelo, foi a mesma coisa: “A gente acredita em Deus, mas não custa fazer uma fezinha em Baal também, só para garantir…”. E hoje? Será que cremos que Deus é suficiente mesmo, ou sempre damos um jeitinho de colocar alguma coisa no altar também? “Deus é bom, mas o dinheiro também é”. “Eu confio em Deus, mas também no meu braço”. “Deus é o meu Senhor, mas não custa ter outra alternativa”. Deus não pode ser adorado adequadamente se ele é adorado junto com outros. Nosso compromisso precisa ser sem reservas, deve ser um salto de fé, não pode existir um “e” em nosso relacionamento com Deus. Deus e…não! É Deus somente, e acabou. 

Uma vez Filipe pediu a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta”. E então Jesus respondeu: “Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai”? (Jo.14:9). A implicação de tudo isso é que, se você não conhece a Deus em Cristo, então você não conhece a Deus de fato. Jesus é o rosto de Deus! Viver com Deus é tomar consciência de nossa insuficiência essencial, que perdemos lá no jardim do Éden com a entrada do pecado. Tudo, exceto Deus, é efêmero, já nos lembrava Salomão no livro de Eclesiastes. Humildade é o que nos falta.

  1. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus mandamentos.

Esse mandamento fala da nossa perspectiva de Deus. Vocês sabem qual é a história dos ídolos da igreja católica? Sabiam que as imagens foram introduzidas com o tempo e nem sempre fizeram parte da liturgia do culto ou missa? Começou lá pelo século III, em um afresco de Priscilla. Pois é, foi daí que as pessoas começaram a venerar e adorar as imagens como representação de deuses para conseguir graças. A igreja católica diz que não; eles fazem imagens e não ídolos, e a Bíblia proíbe fazer ídolos. Eles veneram e não adoram. No papel parece correto, já na prática sabemos que não é assim que acontece. Os fiéis ajoelham, fazem petições e promessas para essas imagens. O que é isso? Idolatria.

Os israelitas no deserto estavam adorando a Jeová quando fizeram o bezerro de ouro (Êx.32:4,5) – “[…] festa ao Senhor” com letra maiúscula. YHWH – Jeová. Mas faziam isso de maneira errada como é claramente demonstrado no texto. Essa não foi a única vez. Certa feita transformaram a arca da aliança em um tipo de talismã (ISm.4:3-5). E adiantou alguma coisa? Nada. Outra vez transformaram o templo como um encantamento de boa sorte (Jr.7:3,4). Isso pode acontecer conosco? Quais seriam os ídolos de hoje? Quais amuletos nós usamos? Aqueles que procuram profeta e pregador de fora tem uma espécie de talismã? De casa não serve. Tem que ser de fora, e se for famoso então… melhor ainda. Uma campanha de vitória pode se tornar um amuleto? Sim, se você acreditar que só através dela você conseguirá o que deseja; E o dízimo, pode se tornar um amuleto espiritual? Se você achar que ser dizimista é uma troca, uma barganha com Deus é correto dizer que o ato de dar o dízimo é um amuleto da sorte para você. Esses são os nossos fetiches espirituais modernos. Cuidado com os ídolos do século XXI.

A visão da crença em Deus veio pelo ouvir. Olha o que diz em (Dt.4:12) – “Então, o Senhor vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes semelhança nenhuma”. Ora, se não viram forma alguma, os israelitas não deveriam se corromper ao fazer imagens visíveis. No Novo Testamento não é diferente: (Rm.10:17) – “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”. Deus não precisa de nossa ajuda para fazer mais imagens, ele nos pede que sejamos testemunhas.

3            Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.

O que exatamente é proibido pelo terceiro mandamento? A palavra vão pode significar “vazio”, “nulo”, “inútil” “sem propósito bom”, “inútil” e “presunçoso”. Estamos proibidos, portanto, de tomar o nome de Deus (mencionar ou ostentar o nome) de um modo que seja ímpio, inútil ou para propósitos errados. Vão é o oposto de verdadeiro. Mas não é só xingando que você fere o terceiro mandamento, ou blasfemando e ofendendo o nome de Deus. Com isso nós aprendemos que violamos o nome de Deus em prol de:

(1) do que é falso – pois sempre que associamos o nome de Deus a mentiras, meias verdades ou propósitos nocivos, quebramos o terceiro mandamento. Já ficou com raiva de Deus? Como algumas igrejas ensinam, já perdoou Deus por algo que ele lhe fez? Cuidado!

(2) do que é fútil – como é a oração que você faz antes das refeições? Ou quando chega à igreja? Jesus abençoa amém? O problema não é a oração curta, e sim que estou de forma descuidada cortando o nome de Deus como se fosse apenas mais um item da minha lista, que quero tirar logo da frente. Assistir Porta dos Fundos entra aqui neste quesito tá certo? Dar risada com o achincalhe do nome de Deus é o mesmo que ofender o seu nome. Usar o nome de Deus para enriquecer também está inserido neste aspecto. Gritar “aleluia! ’ quando o seu time faz gol ou fazer gracejos em uma conversa como “Louvado seja o Cordeiro!”também. Até mesmo glorificação na igreja: Tinha um lá de Ferraz de Vasconcelos que glorificava assim: “Eu te amo Jesus! Se eu te perder eu morro”.

(3) do que não é autêntico – Já cantou algum hino e de repente você pensa: “Eu não vivo isso o que o hino está dizendo”. Eu fico pensando no hino como o 212.

4º “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; “mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou”.

               A Declaração de Fé das Assembleias de Deus diz sobre o 4º Mandamento: A guarda do sábado é o único preceito do Decálogo não repetido no Novo Testamento para ser observado pelo cristão. O sábado é um preceito cerimonial, pois é colocado no mesmo nível do ritual do templo, e os sacerdotes podiam violar o sábado e ficar sem culpa (Mt.12:2-5). De igual modo, o sábado é posto em pé de igualdade com os preceitos dietéticos (Rm.14:2-5). Por essa razão, nós estamos desobrigados do 4º Mandamento.

5º “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”.

               Os primeiros quatro mandamentos tratam da relação entre o homem e Deus. A partir do quinto mandamento, iniciam-se as leis a respeito do relacionamento entre os homens. Honrar pai e mãe é o alicerce sobre o qual o amor ao próximo é construído. O relacionamento com os pais é o primeiro e mais importante. Ele molda todos os outros relacionamentos.

               No Antigo Testamento, era dever dos filhos honrar os seus progenitores, sob pena de morte até! Dê uma olhada em (Dt.21:18-21). Ah, mas isso é um completo absurdo, dirá você. Esse é o nosso problema. Nós desprezamos a graça de Deus. Lembram-se da parábola do filho pródigo? Ele fugiu. Ele era um glutão e bêbado que se encaixa com a passagem de Deuteronômio. No entanto, no momento que o pai deveria apresentá-lo aos anciãos para ser apedrejado, enquanto ainda estava muito distante, correu para ele e o abraçou (Lc.15:24). Jesus estava errado? Não, estava nos expondo o amor do Pai. Mas o que fazemos com isso? Fazemos disso uma graça barata. Temos dois extremos, e não conseguimos andar e viver no meio termo, em minha opinião.

6º “Não matarás”.

                              A palavra hebraica rāşah, usada no sexto mandamento, é encontrada 47 vezes e indica o assassinato violento de um inimigo pessoal (Nm.35:27; 35:30). “Não assassinarás” seria uma tradução viável. Este verbo nunca é usado para indicar um assassinato em defesa própria (Ex.22:2), uma morte acidental (Dt.19:5), a execução de assassinos (Gn.9.6) ou situações de guerra. O verbo rāşah é usado para suicídio, mas não é aplicável ao homicídio não premeditado (Êx.21:12-14) ou acidental (Nm.35:23). A valorização e proteção da vida como bem pessoal proíbe de forma categórica o suicídio, a eutanásia, o infanticídio e o genocídio.

               7º Não adulterarás.

               O casamento romântico é uma concepção moderna. A maioria esmagadora de casamentos na história era de matrimônios arranjados onde se aprendia a arte de amar o cônjuge. Até hoje em muitos países orientais ainda é assim. É ainda uma união permanente que só pode ser anulada pela morte de um dos cônjuges (Rm.7:1-3; ICo.7:39). “Portanto o que Deus ajuntou não separe o homem” (Mt.19:6b). Quando o casamento foi instituído, não havia espaço para a separação. O divórcio foi criado pelo homem por causa da dureza de seu coração, e não por causa de Deus (Mt.19:8). O testemunho bíblico aponta cinco funções fundamentais do casamento: unificação (física, emocional moral e espiritual), procriação (com intuito de gerar filhos), recreação (dentro de quatro paredes tudo é permitido? Eu acredito que o prazer deve ser de ambos, e nunca de um só. Podemos traçar os parâmetros dentro do livro de Cantares de Salomão, altamente erótico [Pv.5:15-19;Ec.9:9] e outras referências), prevenção (contra a imoralidade e promiscuidade e a glorificação (traz honra e glória a Deus).

8º Não furtarás.

               O roubo é um fato humano e nunca desaparecerá da terra. Desde Raquel (Gn.31:19,30), a história trágica de Acã (Jz.7:1-26) e a corrupção generalizada nos dias do profeta Oséias (Os.4:1-2) o furto é praticado. O furto pode até ser metafórico como no caso de Absalão (IISm.15:6). No Antigo Testamento o roubo era punido com a restituição (duas, quatro até cinco vezes o que foi roubado). Se o criminoso não tivesse como pagar a restituição ele deveria ser “vendido por seu furto” (Êx.22:3). No encontro com o jovem rico, o Senhor Jesus faz valer a exigência moral do oitavo mandamento (Mt.19:18). Outro exemplo de versão inibidora do oitavo mandamento no Novo Testamento é a exortação paulina aos efésios: “Aquele que furtava, não furte mais” (Ef.4:28). Paulo ainda diz que “quem não trabalha também não coma” (IITs.3:10). O trabalho não é um peso, um mal em si mesmo, ele já existia antes do pecado (Gn.2:15).

9º Não dirás falso testemunho.

Talvez, se esse mandamento fosse escrito nos dias de hoje, ele seria assim redigido: “Não compartilharás fake news de ninguém”. A quebra do nono mandamento atinge em cheio a nossa honra. Jesus chama o Diabo de pai da mentira e ele tem razão. Já em (Gn.3:1). Jesus Cristo é a síntese e a encarnação da verdade. Ele viveu segundo os preceitos da verdade, falou a verdade, mesmo com detrimento próprio, e exigiu que os seus discípulos fizessem uso da verdade.

  • Não cobiçarás.

Não podemos desejar então? O budismo está certo ao abolir o desejo? Não é bem assim. Sim, nós podemos desejar, mas devemos começar desejando a Deus e sua justiça. A Bíblia ensina que nosso problema não é que desejamos coisas, mas que desejamos coisas erradas ou que desejamos coisas boas de maneira errada. Desejamos coisas mundanas e passageiras quando Deus tem tesouros insondáveis a nos oferecer, mas gostamos de fazer bolinhos de lama. Quanto tempo um brinquedo novo entretém a criança? Nós somos da mesma maneira com o nosso Pai celestial.

Precisamos aprender uma palavra muito importante: contentamento. Estado da pessoa contente, feliz, satisfeita. Independentemente de sua situação ou estado. Como diz o pastor Ed Rene Kivitz, felicidade é o caminho por onde se vai, e não um lugar aonde se chega. Contentamento é o mais poderoso antídoto para a cobiça, mas são poucos que tem a grandiosidade de estarem plenos independente de sua situação. Lembre-se do que Jesus disse: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mt.6:21). O que você ama? O que está buscando recentemente e por toda a vida? O que ocupa os seus pensamentos? Se a resposta for outra que não Deus, você é um idólatra de coisas. Você coisificou a vida. Preencha o espaço em branco; “Se eu tivesse ______________finalmente seria feliz”. O que falta nesse espaço em branco? Uma casa? Um carro zero? Um cônjuge? Filhos? Boa aparência? Um emprego estável? Saúde impecável? Dinheiro? Fama? Nada disso pode preencher o espaço vazio, não do papel, mas da alma, somente Deus. Lembre-se de Asafe no (Sl.73). O testemunho do quadro do filho vendido em um leilão. “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (IJo.5:12).

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