
Lição 09 – Coragem para testemunhar: Paulo diante da multidão Por: Geisel de Paula Texto base: Atos dos Apóstolos 21.27,28,30,31,33,39,40;...
Lição 08 – Despedida em Éfeso – Entre lágrimas e alertas
Por: Geisel de Paula
Texto base: Atos dos Apóstolos 20.17-25, 36-38
O capítulo 20 começa nos informando que depois que passou o alvoroço Paulo chamou a si os discípulos e, abraçando-os, partiu para a Macedônia. E andou por aquelas terras exortando-os (encorajou-os) com muitas palavras, e então desceu a Grécia, onde ficou por três meses. Quando estava se preparando para voltar a Síria (Antioquia), descobriu que alguns judeus (sempre os judeus) conspiravam contra a sua vida e por isso decidiu voltar pela Macedônia. O grupo que Paulo andava era composto por: Sópatro, Aristarco, Secundo, Gaio, Timóteo, Tíquico e Trófimo. Eles foram adiante e esperaram por Lucas e provavelmente Silas em Trôade. Ao todo, pelo menos dez pessoas. Passaram por Filipos e voltaram a Trôade, ficando ali uma semana. Esses faziam parte de um grupo de missionários transculturais.
Foi na cidade de Trôade que aconteceu um fato inusitado. Em um domingo, os irmãos estavam reunidos para partir o pão (Ceia do Senhor). Paulo então começa a falar, e como ia embarcar no dia seguinte, resolve estender o seu discurso até meia-noite e a sala superior onde estavam era iluminada por muitas lamparinas (o que naquela época quer dizer que além da iluminação a luz também aquecia um ambiente que era tradicionalmente frio durante as noites), e como o discurso (pregação) se estendeu por horas, o jovem Êutico que estava sentado no parapeito da janela, provavelmente devido a lotação ou ao calor, ficou muito sonolento e dormiu, caindo de uma altura de três andares e morreu. Nessa hora o discurso teve que ser interrompido, e Paulo simplesmente informou de que o jovem estava vivo. Todos subiram, partiram o pão e comeram juntos. E Paulo continuou o seu discurso (pregação) até o dia raiar e depois partiu. Enquanto isso, o jovem foi levado para casa, e todos sentiram grande alívio. Por esses feitos a igreja era edificada. Não há edificação sem provas e dificuldades.
Paulo foi por terra até Assôs, enquanto os outros foram de navio, não se sabe muito bem por quê. Depois, todos partiram de navio até Mitilene, e no dia seguinte passaram em frente a Quios. No outro dia, atravessaram para a ilha de Samos e um dia depois chegaram a Mileto. Paulo havia decidido não aportar em Éfeso, pois não queria passar mais tempo na província da Ásia (já havia ficado ali por três anos). Ele tinha pressa de chegar a Jerusalém, para a Festa de Pentecostes (uma festa judaica). Paulo então manda chamar os anciãos (líderes) da igreja em Éfeso, que fica a cerca de 50 quilômetros de distância. Ele tem uma mensagem de Deus para lhes entregar. É disso que se trata a lição que temos em mãos. Acredito ser o único discurso (pregação) que temos registro de Paulo falando a crentes (discípulos), e é notório que sua fala é um retrato de maturidade espiritual. Uma coisa é falar com leigos e novos convertidos, outra coisa é falar com a liderança de uma igreja.
O discurso de Paulo
O apóstolo então começa: Vocês sabem que desde o dia em que pisei pela primeira vez aqui até agora (mais de três anos), como em todo esse tempo me portei no meio de vós. Isso é algo muito perigoso para se dizer se você não tem segurança e firmeza no que está falando, pois se você estiver devendo em algo por menor que seja alguém sempre vai dizer ‘é, mais teve aquela vez…’ ou ‘não foi perfeito, mas tá bom…’. Eu não posso dizer nem que nunca faltei nas aulas de EBD, e olha que eu sou o professor. Realmente, Paulo devia ter um comportamento ilibado para se portar diante da igreja do Senhor a ponto de que os anciãos, pessoas mais velhas que ele, não podiam contestar. Paulo não era um pregador mercenário, era um pastor fiel ao rebanho do Senhor.
O que Paulo tinha para dizer de seu tempo em Éfeso? Será que era o número de congregações que construiu? Ou será que era o valor que ele tinha deixado no caixa da igreja? Ou será que é o número de membros arrolado em ata? Tudo isso importa para muitos líderes nos dias de hoje, um legado material, palpável, concreto. Mas, ao que parece essa não era nem de longe uma preocupação para o apóstolo Paulo. O que ele faz questão de citar é o seu serviço ao Senhor doulos – escravo – Rm.1.1). E isso tem muito a ver com o Evangelho de Jesus. Mais do que você fala, importa o que você faz. E o serviço que Paulo cita foi feito com toda a humildade [de espírito] e para o apóstolo dizer isso ele não pode se sentir orgulhoso de ser humilde, se é que vocês me entendem. A posição tomada nesses três anos foi sempre de servo e não de senhor da situação. Qualquer escorregada nisso os anciãos poderiam dizer: ‘olha, não é bem assim…’.
E Paulo continua: “E com muitas lágrimas”…, mostrando que o serviço cristão deveria ser sofrido mais com lágrimas do que com sorrisos, mais com ônus do que com bônus, mais com revés do que com sorte. Os vocacionados precisam entender hoje que o ministério é serviço e não status, humildade e não ostentação, ser o primeiro a chegar e o último a sair e não andar rodeado de assessores e se tornar inacessível como muitos que vemos por aí. As dificuldades de Paulo tem uma origem em quase todos os lugares em que ele passa e em Éfeso não seria diferente: tentações, que pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram”. Eles, sempre os judeus, ainda estavam ameaçando o seu caminho, como tinham feito na Galácia em sua primeira viagem, e em Tessalônica e Bereia na segunda viagem. Importante frisar que na cabeça de Paulo os infortúnios vinham de dentro e não de fora. Foi no Judaísmo que ele cresceu que agora se levantava contra o seu filho mais ilustre. De pupilo promissor de Gamaliel para o judeu mais odiado pelos seus compatriotas. Parece que nem os discípulos de Jesus alimentavam ojeriza tão grande quanto o apóstolo Paulo. Ciladas em cima de ciladas eram colocadas para que Paulo pudesse cair.
Paulo anunciava publicamente (em sinagogas e nas praças) e também nos lares, onde muitas vezes os irmãos do 1º século se reuniam, ensinando e testificando, tanto a judeus como a gregos (gentios) a conversão a Deus (arrependimento) e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo (é preciso aceitas o sacrifício de Jesus na cruz do calvário). Arrependimento e fé, essa era a dupla que Paulo pregava. Paulo estava ligado pelo espírito (não se sabe se o dele ou o de Deus) e tensionava voltar a Jerusalém, sem saber o que podia acontecer, mas que o Espírito Santo o revelava, de cidade em cidade (Corinto, Filipos e Trôade), o esperavam prisões e tribulações. A maioria de nós não iríamos para um destino se lá descobríssemos que seríamos presos. Mas Paulo não era uma pessoa comum. Ele estava mais preocupado com o avanço do Reino de Deus do que com a própria e vida e bem-estar. Algo muito raro nos dias de hoje.
Paulo considera que a sua vida em si não é preciosa. Apesar de ser um texto bíblico, é preciso pensarmos com mais profundidade. O avivalista e pregador escocês do início do século XIX, Robert Murray McCheyne disse uma frase famosa que ficou para a posteridade: “Deus me deu um cavalo e uma mensagem. Eu matei o cavalo e já não posso entregar a mensagem”. McCheyne morreu com apenas 30 anos depois de muitas enfermidades, acabou perdendo a vida para a febre tifoide. O apóstolo Paulo morreu com mais de 60 anos aproximadamente, mas ele parecia não ligar muito para a sua saúde física (1Tm.4.8).
A carreira ministerial vinha em primeiríssimo lugar para Paulo, ou seja, o seu serviço para Deus. Muita gente acaba confundindo isso com o tempo. No primeiro amor, nos primeiros dias da conversão, tudo é lindo, tudo é maravilhoso, tudo é perfeito. Os irmãos são uma benção, os pastores são uma benção, até os adolescentes são uma benção. Vir a igreja todos os dias é um privilégio, uma dádiva, inclusive na oração. Mas o tempo vai passando e as coisas vão mudando na vida do crente. Deus continua o mesmo mas por vezes as pessoas mudam ao enxergar um comportamento diferente em seus semelhantes. E o novo crente começa a se frustrar, não com Deus, mas com o irmão ao seu lado. Não com o Espírito Santo, mas com o pastor da congregação. Não com Jesus mas com o professor da EBD. É aí que entra o comportamento de manada. Ninguém chega cedo no culto, por que eu vou chegar? O pastor não ora, por que eu vou orar? O professor da EBD não estuda profundamente a Bíblia, por que eu vou estudar? Quem perde com isso é sempre o Reino de Deus. E por falar em Deus, ele continua o mesmo e não tem nada a ver com isso.
O nosso serviço vem de Jesus. Foi ele que nos designou, ele é o nosso chefe. Mais do que isso, ele é o nosso Senhor. A ele nós servimos, somos escravos dele. Precisamos fazer o que ele manda. O nosso serviço volta para Jesus. Não fazemos as coisas para o homem. O nosso foco deve ser ele, Jesus. Eu estudo a Bíblia para poder de alguma forma glorificá-lo, eu leio a Bíblia para poder cada vez mais conhecê-lo, eu oro para poder sentir a sua presença mais próxima de minha vida. Essa deve ser a nossa pegada, o nosso relacionamento com ele tem que visar a sua pessoa e não o serviço em si. Isso é necessário para que não nos tornemos apenas cumpridores de regras onde perdemos o propósito. O que faz você estar aqui? O que faz você acordar cedo? O que faz você cultuar semana após semana? Não pode seu um programa, uma liturgia, um sistema. Precisa ser necessariamente uma pessoa. Jesus! Se for assim, anunciaremos como Paulo, as boas-novas (evangelho) da graça (favor imerecido) de Deus (em Jesus). Que assim seja em cada vida!
Paulo acreditava piamente que aquela seria a última vez em que veriam o seu rosto. Não sabemos dizer se de fato isso aconteceu (1Tm.1.3), mas talvez Paulo quisesse dizer que alguns ali não o veriam mais, seja por causa de morte ou de algo, em alguns sentidos até pior. Paulo então declara, protesta, é a palavra, estar limpo do sangue de todos, mas o que isso significa? A Bíblia Viva diz assim: “Quero dizer-lhes claramente que a culpa pela perdição de alguém não pode ser lançada sobre mim”. A NTLH traz: “…se algum de vocês se perder, eu não sou o responsável”. A NVT: “…se alguém se perder não será minha culpa”. Por quê? Segundo Paulo, porque ele nunca deixou de anunciar todo o conselho de Deus, ou seja, tudo aquilo que Deus quer que vocês saibam. O que você precisa saber e não o que você quer saber. Existe uma grande diferença entre a necessidade e a vontade.
Paulo então orienta aos líderes da igreja em Éfeso: “olhai por vós”, ou seja, cada um deve cuidar de si mesmo antes de colocar os olhos no que os outros estão fazendo. E depois disso, “olhai por todo o rebanho do qual foram constituídos líderes pelo Espírito Santo para apascentardes a igreja de Deus”. Não perca isso de vista: a igreja é de Deus e não dos bispos, apóstolos ou pastores. A igreja pertence a Deus! Tem gente por aí se esquecendo de que a igreja custou o sangue de Cristo.
Paulo então adverte que após a sua partida, entrarão (vindos de fora), lobos cruéis (falsos mestres) que não perdoarão o rebanho. Nós somos uma comunidade de irmãos. Acha mesmo que alguém de fora terá dó de alguém aqui? Não terão. E Paulo continua: “E dentre vós mesmos”, aí machuca. “Se levantarão homens que falarão coisas perversas (distorcerão a verdade) a fim de atraírem (conquistarem) discípulos após si (seguidores). Tudo se resume a alguém querer ocupar o lugar que é do próprio Cristo. Nunca podemos permitir isso. O que Paulo aconselha? “Vigiem”! Então ele dá um histórico de sua passagem por Éfeso (At.20.33-35). Não existe nada mais precioso e que fale mais alto do que um bom legado. E Paulo deixou isso em Éfeso. Isso ficou bem claro para todos ali (At.20.36-38).
Bibliografia
GABY, Wagner. A Igreja dos gentios – Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos. Editora CPAD. Rio de Janeiro. 2026. 1ª edição.
PENNA, Romano. As primeiras comunidades cristãs – Pessoas, tempos, lugares, formas e crenças. Editora Vozes. Petrópolis – RJ. 2017.
BEITZEL, Barry J. Novo Atlas da Bíblia – Geografia – Arqueologia – História. Edições Vida Nova. São Paulo. 1ª edição. 2017.

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