Lição 09 – Coragem para testemunhar: Paulo diante da multidão

Por: Geisel de Paula

Texto base: Atos dos Apóstolos 21.27,28,30,31,33,39,40; 22.1-7

               Até onde você está disposto a ir pelas suas convicções? Será que estaria disposto a se colocar em uma situação de extrema insegurança para a sua integridade física e sua liberdade para defender aquilo que você acredita, sem renunciar a sua convicção? Ao que parece, Paulo não abria mão das suas. Alguns chamariam isso de ‘cabeça dura’, já outros chamariam de fé inabalável. Para chegarmos a alguma conclusão, precisamos analisar mais detalhadamente os três próximos capítulos de Atos (21,22 e 23), e o que as decisões de Paulo causaram em sua própria vida, para demérito seu ou engrandecimento do nome de Jesus, a critério de quem possa olhar de fora. 

               No capítulo 21 somos informados que o grupo de Paulo (e Lucas, não se sabe se mais alguém) parte navegando rumo a Jerusalém, passando primeiramente pela ilha de Cós (de Esculápio [deus da cura] e Hipócrates [do juramento da medicina]), Rodes (do Colosso de Rodes, de 45 metros de altura [Apolo]) e Pátara. Passaram ao lado da ilha de Chipre, aportando em Tiro, na Síria, onde ficaram com alguns discípulos por uma semana. No verso 4 somos informados que esses discípulos, pelo Espírito, advertiam Paulo de que não subisse a Jerusalém. Não adiantou, visto que a congregação com mulheres e crianças da cidade acompanha o grupo até a praia, onde de joelhos oraram juntos e assim se despediram com Paulo dando continuidade ao seu destino: Jerusalém.

               Depois chegaram a Ptolemaida onde ficaram um dia, e depois prosseguiram para Cesareia, onde se hospedaram na casa de Filipe, o evangelista ( o mesmo do grupo dos sete diáconos que haviam sido separados e que havia pregado ao eunuco etíope e para o povo de Samaria). Ele se destacou tanto que é o único homem a receber esse título. Ele tinha quatro filhas donzelas, que profetizavam (ou em outras traduções, pregavam). Eles permaneceram ali muitos dias e acompanharam a chegada da Judeia de um profeta por nome Ágabo (At.11.28). Este então profetiza que Paulo seria preso em Jerusalém. Veja que ele não disse para Paulo não ir; ele disse que se Paulo fosse, seria preso. Nessa ocasião, tanto os companheiros de Paulo como os irmãos daquele lugar, suplicaram a Paulo que não fosse a Jerusalém. Eles chegaram a chorar, mas nem isso sensibilizou Paulo que continuou firme em seu propósito. “Estou pronto não apenas para ser preso em Jerusalém, mas para morrer pelo Senhor Jesus”. Quando ficou evidente que não conseguiriam fazer ele mudar de ideia, desistiram: “Que seja feita a vontade do Senhor”! Dessa forma, partiram mais uma vez e chegaram a Jerusalém à casa de Mnason, na entrada da cidade, ele, um varão cipriota, um dos primeiros discípulos, um dos quase 120 discípulos presentes no dia de Pentecostes, segundo alguns estudiosos.

               O texto nos informa que Paulo foi recebido em Jerusalém de boa vontade pelos irmãos dali. Ele ficou na casa de Tiago, e todos os anciãos foram lá para vê-lo e receber a oferta levantada pelas igrejas gentias para a igreja de Jerusalém. É importante frisar que Paulo manteve o desejo firme de ir a Jerusalém para levar a oferta da igreja gentílica a uma igreja  (Jerusalém) que passava por dificuldades severas. O Comentário Beacon diz o seguinte desse trecho: “O principal na mente de Paulo era o desejo de unir as igrejas judaica e gentílica em uma unidade e uma comunhão mais íntimas. Ele esperava que a oferta de amor dos gentios ajudasse os cristãos judeus a sentir maior bondade em relação a eles. Paulo também desejava que os líderes de Jerusalém sentissem o espírito dos seus convertidos das províncias. Um contato pessoal era essencial para poder realizar isto”. Mas se tem algo difícil de ser quebrado é o orgulho de alguns.

Paulo então contou-lhes minuciosamente o que Deus fizera por intermédio de seu ministério no meio dos gentios. Então, aqueles anciãos se alegraram e disseram: “Você sabe, irmão, quantos milhares de judeus também creram, e todos eles seguem à risca a lei de Moisés” (At.21.20 | NVT). Nós sabemos que você ensina que todos os judeus que vivem entre os gentios a abandonarem a Lei de Moisés, e que não precisam mais circuncidar os filhos nem seguirem os costumes judaicos. O que faremos em relação a isso?

Esses irmãos até criam no que Paulo estava dizendo mas estavam preocupados com parte da igreja em Jerusalém em saber se Paulo ainda era um bom judeu. Sim, porque milhares de judeus haviam se convertido a nova fé e em sua maioria continuavam zelosos da Lei. Para eles, a fé em Cristo não entrava em conflito com a Lei de Moisés. Em nenhum texto do Novo Testamento nos é dito que Paulo pregasse assim para judeus, mas que os gentios não precisavam guardar a Lei. Fato é que bolaram um plano para que Paulo se purificasse, raspasse a cabeça e fosse visto no templo, para que ninguém pudesse duvidar de sua religiosidade em relação ao Judaísmo. Passados quase sete dias, estando no templo, Paulo foi preso pelo motim causado por alguns judeus da província da Ásia, que o acusavam de pregar contra o povo (judeus), contra a lei (Toráh), e contra o templo (pois acreditavam que Paulo havia levado Trófimo, que era grego, nas dependências do templo. Isso obviamente era uma falsa acusação.

Como diz o ditado, é muito mais fácil destruir do que edificar. A agitação tomou conta da cidade e Paulo foi preso em meio a um grande tumulto com o agito dessas acusações. Assim Paulo foi levado para fora do templo e quando já estava prestes a ser morto pelos seus algozes um regimento romano com o seu comandante entrou no meio da multidão e livraram Paulo de ser espancado ainda mais. Ao perguntar o que Paulo havia feito, ele não conseguiu entender o que diziam e ainda assim, tentavam arrebatar Paulo dos soldados para o matar.

No capítulo 22, Paulo faz o que qualquer um que teve a sua história transformada por Deus em algum sentido faz: ele contou o seu testemunho para todos. E começou dizendo quem ele era antes da sua conversão. Nos versos 1 e 2 ele faz uma pequena introdução para chamar a atenção dos seus interlocutores, e faz isso na língua materna, o hebraico, o que fez que todos ficassem em profundo silêncio para o ouvir. Depois, em sua vida pregressa, ele discorreu entre os versículos 3 a 5 (3 versículos), onde ele discorre sobre a sua fama contra aquela seita (movimento) do Caminho e insere o sumo sacerdote e todo o conselho de líderes da cúpula judaica como testemunhas de que o que ele está falando é verdade. Ele está embasando sua história em testemunhas acima de qualquer suspeita. Note que ele não gasta muito tempo informando quem ele era, mas sim, naquilo que realmente importa, em quem ele é em Cristo a partir da conversão. Ele faz isso entre os versículos 6 a 21 (16 versículos), ou seja, ele gasta mais de 80% do tempo contando novidade de vida e não vida antiga, como muitos por aí fazem quando testemunham.

Ele conta do seu encontro com Jesus, entrando em sua existência em uma aparição sobrenatural dentro do ordinário, com consequências graves, pois a luz mais forte que o sol do meio-dia o deixou cego por certo tempo. Jesus se revela a ele, e ele não o conhece, pois Cristo está glorificado. Aquele ser prepotente em meio a luz só tem coragem de perguntar o que deve fazer, visto que Jesus informa que Saulo o está perseguindo quando persegue os seus. Jesus então manda que ele vá até Damasco. Chegando lá, Deus manda seu servo Ananias para orar por Saulo e assim restaurar lhe a visão. Imediatamente Saulo enxergou e assim foi também passado a sua missão: arrependimento e batismo como prova pública de que havia aceitado a nova fé. E assim foi feito. Voltando a Jerusalém, Saulo logo viu que não o aceitariam no seio da igreja, pela sua fama contrária aos servos do Senhor. Todos se lembravam do que havia acontecido com o diácono Estevão. Saulo tinha as suas mãos sujas de sangue. Então Jesus lhe disse: “Vá pois eu o enviarei para longe, para os gentios”. Os judeus escutaram Paulo atentamente até ouvirem a palavra ‘gentios’. Então começaram a gritar: “Fora com esse sujeito, ele não merece viver”. Mais uma vez, a intolerância judaica contra a fé ser compartilhada entre os gentios é demonstrada, e assim Paulo foi mantido preso.

Então o tribuno ordenou que examinassem Paulo com açoites, em outras palavras, que o torturassem para que ele confessasse qual era o seu verdadeiro delito. Quando estavam esticando as correias que o prendiam para o açoitar, Paulo simplesmente pergunta para o centurião: “A lei permite açoitar um cidadão romano sem que ele tenha sido julgado”? O centurião informa ao comandante e assim cancelaram a pena na mesma hora. Paulo era cidadão romano de nascimento, pois seu pai ou avô haviam ganhado esse benefício do próprio César. Então o comandante decide reunir o conselho para examinar o caso no dia seguinte.

Bibliografia

GABY, Wagner. A Igreja dos gentios – Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos. Editora CPAD. Rio de Janeiro. 2026. 1ª edição.

PENNA, Romano. As primeiras comunidades cristãs – Pessoas, tempos, lugares, formas e crenças. Editora Vozes. Petrópolis – RJ. 2017.

BEITZEL, Barry J. Novo Atlas da Bíblia – Geografia – Arqueologia – História. Edições Vida Nova. São Paulo. 1ª edição. 2017.

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