Lição 04 – O Espírito que nos guia para além das fronteiras

Por: Geisel de Paula

Texto base: Atos dos Apóstolos 16.11-18,25-31

               A segunda viagem missionária então se dá início, agora com Paulo e Silas na companhia de Lucas, que vai registrando tudo para que depois forme o Livro de Atos dos Apóstolos, que temos em mãos hoje. Partiram para a Síria e Cilícia, confirmando as igrejas pelo caminho. Essa região era um lugar familiar para Paulo, pois ficava próximo a Tarso, sua cidade natal. Depois foram para Derbe e Listra, onde ele, Paulo, havia sido apedrejado. Lembranças boas e ruins devem ter passado em sua mente.

Ali conheceram, ou no caso de Paulo, reviu a Timóteo, discípulo de Jesus, filho de uma judia que era crente, mas de pai grego. Sua mãe se chamava Eunice e sua avó Lóide. Os irmãos que estavam em Listra e em Icônio davam bom testemunho (tinham alta consideração) de Timóteo e assim Paulo quis levá-lo em sua companhia e por isso o circuncidou (para não dar vazão para críticas [afinal, segundo o código rabínico o filho de uma mãe judia era considerado judeu], mas isso já não ocorreu em relação a Tito que era gentio (Gl.2.3), mesmo sob forte pressão dos judeus pois para Paulo, a única questão que importava era: “o que é melhor para o Reino de Deus”? – (1Co.9.20). E quando iam passando pelas cidades lhes entregavam os decretos que haviam sido estabelecidos pela assembleia (apóstolos e anciãos) em Jerusalém. As igrejas assim eram confirmadas na fé e a cada dia cresciam em número.

A chegada a Galácia

O escritor Romano Penna discorreu sobre essa passagem dessa menira: “Lucas escreve que, após a separação de Barnabé logo após o Concílio de Jerusalém, Paulo e Timóteo percorreram “a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia” (At.16.6). Estamos no ano 48-49. Nem Lucas nem Paulo mencionam qualquer local específico como o palco da atividade do Apóstolo na região. Nós só sabemos que ele ocasionalmente se deteve por causa de algumas de suas indisposições (Gl.4.13) e que por essa razão despertou boas atitudes e até mesmo respeito por parte dos Gálatas (Gl.4.14,15), além de ser forçado a um estada relativamente longa. Mas sua permanência foi produtiva em termos de evangelização, dado que a carta subsequente dirigida “às Igrejas da Galácia” (Gl.1.2) emprega um plural para indicar diferentes grupos de cristãos”. Assim chegaram a Trôade onde Paulo teve uma visão, que lhe seria comum (At.16.9; 9.12; 18.9; 26.19; 2Co.2.1). Embora não fosse aonde queria ir, Paulo iria aonde Deus tinha trabalho para ele fazer. Se o varão da Macedônia diz “Vem e ajuda-nos”, Paulo, então, conclui que Deus diz: “Vá e ajude-os”. Assim se encaminharam para Filipos.

O apóstolo Paulo e seu grupo (Silas, Lucas e Timóteo), chegaram a Filipos, uma colônia romana e no sábado foram até a beira de um rio (não havia sinagoga na cidade) procurando um local mais adequado para oração (que era uma prática judaica de purificação) e lá encontraram um grupo de mulheres reunidas. Uma dessas mulheres era Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, tecidos que eram tingidos com a tintura obtida de um molusco e esse tipo de tecido era muito caro na época. A Bíblia declara que ela servia a Deus (uma prosélita?). Quando ela ouviu o que Paulo tinha a dizer sobre as boas-novas do Evangelho o Senhor lhe abriu o coração e ela aceitou aquilo que Paulo estava dizendo. Lídia foi a primeira pessoa convertida na Europa de que nós temos registro. Ela foi batizada juntamente com toda a sua família e hospedou a comitiva missionária em sua própria casa. Em Atos 16.40 parece indicar que a igreja se reunia em sua casa que provavelmente era espaçosa.

“Certo dia, enquanto íamos ao lugar de oração…” – diz Lucas, talvez ainda na beira de um rio, foi ao encontro deles “uma escrava possuída por um espírito pelo qual ela predizia o futuro e com as suas adivinhações, ganhava muito dinheiro para os seus senhores”. Resta saber se eles desde o início perceberam o espírito maligno nela ou foi só depois. Fato é que ela começou a seguir o grupo e a gritar: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo (El Elyon) e vieram anunciar como vocês podem ser salvos”. Isso não é de todo novo. Ver Marcos 1.23,24 (verdade) e Lucas 4.41 (inclusive foi a mesma declaração de Pedro em Mateus 16.16). O que tem de errado na afirmação dela? Nada, aparentemente.

Fato é que Paulo meio que foi vencido pelo cansaço daquela cantiga modorrenta, aquela gritaria, que talvez quisesse mexer com o ego daqueles missionários ou apenas surfar na onde deles, ou seja, mais um acerto para ela em suas adivinhações, mas Paulo, de saco cheio daquilo tudo, indignado, se voltou e disse ao espírito dentro da jovem: “Eu ordeno em nome de Jesus Cristo que saia dela”. E no mesmo instante o espírito a deixou. Não sei se eles previam o que ia acontecer, mas a perseguição se abateria sobre eles a partir daí. Diz o texto bíblico: “Quando os senhores da escrava viram que suas expectativas de lucro haviam sido frustradas, agarraram Paulo e Silas e os arrastaram à presença das autoridades, na praça do mercado” (At.16:19 | NVT).

Você pode mexer com quase tudo mas não mexa com o bolso dos poderosos. Quando não era a inveja e o ciúme dos judeus era o lucro e a ganância dos gentios. “Estes judeus estão tumultuando (causando desordem) a cidade! Eles ensinam costumes que nós, romanos, não podemos seguir, pois contrariam as nossas leis!” Eles tocaram no ponto fraco daqueles cidadãos: o orgulho de serem cidadãos romanos. Dessa forma os magistrados (pretores romanos) rasgaram-lhes as vestes e os açoitaram severamente com varas e depois os lançaram na prisão com ordens expressas de que eles fossem bem guardados para que não escapassem, e por isso, o carcereiro resolveu prende-los no cárcere interior e ainda prendeu os seus pés no tronco. Segundo o Comentário Beacon: “Este tronco era aparentemente feito como os troncos tradicionais da cidade, porém tinha mais dois buracos para as pernas, de forma que elas eram forçadas a ficar separadas em uma posição intoleravelmente dolorosa”.

O que você faria? Sinceramente? Eu provavelmente iria reclamar muito do meu infortúnio, talvez me arrepender de ter libertado da opressão aquela mulher pois caso contrário não estaria naquela situação. ‘Fiz tudo certo e é assim que sou recompensado’? Provavelmente seria assim que eu reagiria me conhecendo como me conheço. Paulo e Silas (não nos é informado porque Timóteo e Lucas não estão com eles) apresentam um trunfo do cristianismo no espírito humano. Ao invés de murmurarem e se queixarem porque não podiam dormir por conta da posição incômoda e das dores, perto da meia-noite, no meio da escuridão daquela cela podre, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus (Tg.5.13), demonstrando aflição por um lado e alegria por outro. Ao orarem, eles sentiam a alegria crescer dentro deles e isto os levava a cantar. E eles faziam isso em alta voz, a ponto de que os outros presos os escutavam.

As vezes me pergunto sobre o que realmente mexe com o céu e com a eternidade. Duvido muito que uma pregação totalmente bíblica e expositiva com um alto conhecimento das Escrituras consiga mexer ou fazer cócegas nas regiões celestiais. Agora um louvor vindo da alma e do coração arrancado de um momento de dor e dificuldade, eu realmente creio que isso mexe com Deus e no mundo espiritual. E eu acredito que isso aconteceu aqui. De repente, sobreveio um forte terremoto, ao que tudo indica apenas na prisão, onde os alicerces foram sacudidos. No mesmo instante, todas as portas das celas se abriram e as correntes de todos os presos se soltaram (eu sinceramente, nunca vi um terremoto quebrar correntes, isso foi a ação sobrenatural de Deus). Esse movimento acordou o carcereiro que viu as portas da prisão escancaradas. “Imaginando que os prisioneiros tinham escapado, puxou a espada para se matar. Paulo porém, gritou: ‘Não se mate! Estamos todos aqui’” O ‘todos’ de Paulo não se refere a ele e Silas e sim a todos os presos presentes naquela prisão. O milagre ainda era maior do que qualquer um podia prever.

Pedindo luz, o carcereiro saltou dentro e todo trêmulo estava abalado pelo acontecimento, reconhecendo que o terremoto estava relacionado com Paulo e Silas. Tirando-os para fora fez a pergunta de 1 milhão de dólares: “Senhores, o que devo fazer para ser salvo”? Então eles responderam: “Creia no Senhor Jesus Cristo e serás salvo tu e a tua casa”. Essa promessa específica não pode ser generalizada, pois a salvação é individual, mas valeu, para o caso desse carcereiro. 

Bibliografia

GABY, Wagner. A Igreja dos gentios – Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos. Editora CPAD. Rio de Janeiro. 2026. 1ª edição.

PENNA, Romano. As primeiras comunidades cristãs – Pessoas, tempos, lugares, formas e crenças. Editora Vozes. Petrópolis – RJ. 2017.

BEITZEL, Barry J. Novo Atlas da Bíblia – Geografia – Arqueologia – História. Edições Vida Nova. São Paulo. 1ª edição. 2017.

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