Lição 07 – Quando o Espírito sopra em Éfeso

Por: Geisel de Paula

Texto base: Atos dos Apóstolos 19.1-12

               Aqui no capítulo 19 se inicia a 3ª viagem missionária do apóstolo Paulo. Deixando Apolo em Corinto, Paulo viajou pelas regiões do interior até chegar em Éfeso, no litoral, onde encontrou alguns discípulos. O Comentário Beacon sugere: “A identidade destes discípulos é uma das questões mais discutidas do estudo de Atos. A opinião antiga prevalecente, começando com Crisóstomo (séc. IV), dizia que eram discípulos de João Batista. Esta ideia foi expressa por Adam Ciarke nos seguintes termos: ‘É provável que fossem judeus asiáticos que, tendo estado em Jerusalém cerca de 26 anos antes, haviam ouvido as pregações de João e tinham recebido o batismo, acreditando na vinda de Cristo, que João anunciara. Mas parece que até essa ocasião eles não tinham recebido mais nenhum outro ensino sobre a religião cristã’”. Parece que estes discípulos não tinham estado em contato com a igreja cristã, ou talvez tivessem deixado a Palestina antes do Pentecostes e ficado isolados dos seguidores de Jesus desde essa época.

               Como só conheciam o batismo de João (em águas por imersão), Paulo então fala sobre a chegada de Jesus e lhes impôs as mãos e o Espírito Santo veio sobre eles, e falaram em línguas e profetizaram. Ainda Beacon: “A questão de falar em línguas tem sido um tema de discussão da igreja cristã nos tempos modernos. Ela é mencionada apenas três vezes em Atos, em conexão com o Pentecostes original (At.2:4), com o Pentecostes dos gentios (At.10:46), e com o Pentecostes efésio (At.19:6). Em cada uma destas ocasiões, a questão está relacionada com o recebimento do Espírito Santo. Por outro lado, nada é mencionado sobre falar em línguas quando os convertidos samaritanos receberam o Espírito (At.8:17)”. Lucas informa que esse grupo era formado por uns doze varões.

               Ao que parece, os judeus de Éfeso eram mais receptivos do que os judeus de outros lugares pois Paulo ficou ensinando na sinagoga deles por um espaço de três meses sem ter sido expulso, e mais, eles ainda rogaram que Paulo ficasse mais tempo (At.18.20), criando uma impressão favorável. O ensino de Paulo era acerca do reino de Deus. Enfim, com o tempo, alguns deles se mostraram endurecidos (acho que a única exceção tenha ocorrido em Bereia – [At.17.11,12]), rejeitando a mensagem e passaram a falar mal do Caminho [Caminho com letra maiúscula] (cf. At.9.2; 19.23; 22.4; 24.14; 24.22 – Jo.14.6). Assim era conhecida a ‘seita’ do Cristianismo no 1º século, foi o primeiro nome dado ao movimento. Já as pessoas ligadas a esse movimento foram chamadas de cristãos (At.11.26). Paulo então deixa a sinagoga com alguns discípulos passando a realizar as discussões diárias na Escola de Tirano, que era um local para ensino (schole), pela manhã pelo próprio Tirano, e das 11 às 16 horas pelo apóstolo Paulo por um espaço de dois anos onde todos ouviram a Palavra do Senhor (At.19.10; 20.31).

O avivamento em Éfeso

               Um avivamento estava prestes a acontecer nessa cidade que tinha uma população estimada entre 200 e 500 mil habitantes no 1º século, uma das mais prósperas cidades do Império Romano. O impressionante Teatro de Éfeso acomodava cerca de 25 mil espectadores e o grande Templo de Diana (ou Ártemis – a deusa de vários seios), uma das sete maravilhas do mundo antigo, funcionava como um movimentado centro religioso, financeiro, e um santuário inviolável para criminosos e foragidos. Acredita-se que o material da estátua original tenha vindo de um meteorito que caiu do céu. O templo era tão respeitado que funcionava como um banco onde reis e cidadãos guardavam suas moedas e tesouros. O templo de Diana possuía em sua glória 137 metros de comprimento e 69 metros de largura, com 127 colunas de mármore com 18 metros de altura cada. Estou passando esses dados apenas para ressaltar a ideia de Éfeso era uma cidade idólatra ao extremo, mas isso não foi impedimento para que o avivamento rompesse nesse lugar. Como? É o que veremos a partir de agora.

               Parodiando o programa jornalístico Globo Repórter, podemos inferir: “Onde moram os avivamentos? Como eles começam? Como sobrevivem? O que comem? Hoje, no Globo Repórter”. Bom, deixando as piadas de lado, como começa um avivamento? Para respondermos essa pergunta, é preciso dizer com muita ênfase que não é possível inserir um avivamento na agenda da sua igreja. Dito isso, quando vemos um banner com os dizeres: ‘Semana do Avivamento’ ou ’12 dias de avivamento para 12 meses de vitória’ ou ‘Terça-feira de avivamento’, é com muito pesar eu digo isso, tudo balela. O verdadeiro avivamento não pode entrar na agenda humana, pois ele nasce em Deus e é sempre um movimento espontâneo.

               Bom, se descobrimos como ele não nasce, então, como começa um avivamento? Ouso dizer que nenhum avivamento verdadeiro possa se iniciar sem a busca (oração) e a Palavra de Deus. Atos 2 mostra que os discípulos buscaram com fervor a descida do Espírito Santo por dez dias, e assim, foram agraciados. O avivamento samaritano iniciou-se na disposição de Filipe anunciar as boas novas seguidos por sinais e maravilhas. Já o avivamento em Éfeso acontece com a explanação sistemática da Palavra de Deus (Antigo Testamento + testemunhos sobre o ministério de Jesus) durante um espaço de mais de dois anos inteiros onde muita gente ouviu a Palavra do Senhor. Ao que parece, Paulo fazia isso diariamente com uma audiência rotativa, onde muitos eram convertidos e davam espaço para outros ouvirem e assim sucessivamente, rompendo em muito as fronteiras da cidade. E se tem uma coisa que a Palavra de Deus faz é limpar (Jo.15.3), e quando isso acontece na vida do homem ele é transformado (metanóia). E quando muitos homens mudam, a sociedade muda junto.

               Agora a Palavra de Deus era acompanhada de sinais. A Bíblia diz no versículo 11 que pelas mãos de Paulo Deus fazia maravilhas (milagres) extraordinárias (incomuns, especiais, não vulgares [Pe. Matos Soares]). Lenços (objeto que era usado na cabeça) e aventais (do trabalho de curtidor) de Paulo eram levados e colocados sobre os enfermos e estes eram curados de suas doenças e deles saíam expulsos malignos. Curas e exorcismos (expulsão de demônios – libertação). Isso era uma espécie de fé sincera de que objetos do homem de Deus tinham poder de cura, o que não é verdade mas Deus operou na fé sincera de cada um.  Segundo o comentarista Wagner Gaby: “Deus, porém, ajustou-se à demanda humana por alguma coisa tangível, e até o Senhor Jesus usou terra e saliva (Jo.9.6). O poder de Deus salva os que creem no evangelho, cura os doentes e liberta os endemoninhados! Sinais acompanham a Palavra, mas nunca a substituem (Mc.16.20)”.

               Alguns viram a ocasião para capitalizar em cima. Para ganhar notoriedade e publicidade (qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência). Eram eles os sete filhos de Ceva, principal dos sacerdotes, e estes eram ambulantes que viviam pelas ruas das cidades, e diziam: “Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega”. O demônio que estava dentro do homem falou usando as cordas vocais deste: “Conheço a Jesus e bem sei quem é Paulo; mas vós, quem sois”? Assim, o homem endemoniado pulou sobre eles, cinco conseguiram escapar mas dois foram pegos, tiveram suas vestes rasgadas e apanharam muito, fugindo nus para casa. Quando a cidade de Éfeso ficou sabendo dessa história (em que em nenhum momento envolveu Paulo, mas apenas o seu nome), diz a Bíblia que ‘caiu o temor sobre todos eles’ e que o resultado disso foi que ‘o nome do Senhor era engrandecido’.  Engraçado pensar que o inimigo trabalhou contra ele mesmo.

               A partir daí acontece algo que eu considero o mais espetacular de tudo, o sinal de que verdadeiramente um avivamento está acontecendo. A cidade começa a ser transformada. Aqueles que eram salvos, novos convertidos, confessavam suas obras pecaminosas, e as artimanhas que usavam para que pessoas acreditassem na feitiçaria que apresentavam. Nada de mágica. Apenas truques e feitiçaria. Muitos trouxeram, ao que tudo indica, espontaneamente, seus livros de bruxarias e encantamentos e os queimaram publicamente. Alguém se deu o trabalho de somar o quanto em dinheiro estava sendo queimado e o valor da quantia chegou a 50 mil peças de prata, ou seja, o valor de 50 mil dias de trabalho, algo em torno de R$ 2.700.000,00 (fazendo a conta com o salário-mínimo)!  Segundo Gaby: “Esse gesto de trazerem os livros de magia para serem queimados demonstra que o verdadeiro avivamento não se limita a palavras, mas produz mudanças práticas, renúncia ao pecado e testemunho público (2Co.7.10; 1Ts,1.9). A transformação era algo visível na sociedade.

               É justamente isso que os ditos avivamentos de hoje não fazem, pelo menos não tenho noção desses fatos; de que a sociedade seja transformada com o crescimento do número de cristãos. Pesquisando alguns dados, descobri que existem cerca de 580 mil estabelecimentos religiosos no país, e destes, cerca de 100 mil são evangélicos. Já bares, botecos e adegas são mais de 200 mil. A pergunta que fica é: por que o número de bares não diminui? Por que as pessoas preferem ir ao bar do que ir à igreja? Por que nós como cristãos que somos, não conseguimos influenciar a sociedade? Muitos dizem a célebre frase: ‘O Brasil é do Senhor Jesus’. Eu não acredito nessa afirmação. Se o nosso país fosse mesmo de Jesus não veríamos tantas injustiças como temos visto em nossa nação.

               Como em todos os outros lugares que Paulo passou, mesmo considerando um tempo considerável de aproximadamente três anos, a oposição enfim chegou. O Comentário Beacon assim relata: “Geralmente, aconteciam duas coisas quando Paulo permanecia muito tempo em uma cidade: primeiro um reavivamento, depois um tumulto — e depois ele abandonava a cidade! Este foi o seu padrão em Antioquia da Pisídia (At.13:50), Icônio (At.14:5-6), Listra (At.14:19-20), Filipos (At.16:14-23), Tessalônica (At.17:4-10), Beréia (At.17:11-14) e Corinto (At.18:1-18). A única cidade em que Paulo pregou e não sofreu perseguições foi Atenas, onde, na verdade, ele foi despedido da cidade acompanhado do escárnio de seus habitantes (At.17:32). Provavelmente, Paulo ficou mais ferido pelo escárnio cruel do povo, do que pela violência das multidões das outras cidades”.

               Aquilo que é inevitável acaba acontecendo (Jo.16.33) e Demétrio, o ourives (fabricante de ídolos) levantou um tumulto contra o apóstolo Paulo. O tumulto aconteceu, segundo a Bíblia, por causa do Caminho. O fabricante de ídolos estava tendo prejuízo pois ninguém mais queria saber de comprar seus badulaques. Assim, ele reuniu a confraria e deu a letra: “Nossos lucros vem desse empreendimento (a crença do povo). Se esse sujeito (Paulo), que já convenceu muita gente, continuar a pregar que os nossos deuses não são de verdade, além da nossa desgraça pública, corre o risco até mesmo de o grande templo da grande deusa Ártemis perca a sua influência e assim seja destituída de seu grande prestígio”. A turba, ao ouvir isso, começou a gritar, furiosa: “Grande é Diana dos efésios”! A confusão foi grande.

               Já dentro do anfiteatro a confusão continuou. Paulo quis entrar mas não permitiram (v.30). Cada um dizia uma coisa mas a maioria nem sabia por que estava ali. Sobrou para o Alexandre (v.33). Ao tentar falar, percebendo que era judeu, a turba voltou a gritar: ‘Grande é a Diana dos efésios”! Isso por duas horas. O escrivão colocou ordem na casa dizendo a verdade: se Demétrio tinha algo contra os judeus, ele que fosse aos tribunais, que se façam acusações formais e que aquele motim podia acabar mal. Então os despediu e a multidão se dispersou.

Bibliografia

GABY, Wagner. A Igreja dos gentios – Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos. Editora CPAD. Rio de Janeiro. 2026. 1ª edição.

PENNA, Romano. As primeiras comunidades cristãs – Pessoas, tempos, lugares, formas e crenças. Editora Vozes. Petrópolis – RJ. 2017.

BEITZEL, Barry J. Novo Atlas da Bíblia – Geografia – Arqueologia – História. Edições Vida Nova. São Paulo. 1ª edição. 2017.

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