
Lição 10 – Uma esperança inabalável perante os poderosos Por: Geisel de Paula Texto base: Atos dos Apóstolos 24.1-6, 10-16...
Lição 10 – Uma esperança inabalável perante os poderosos
Por: Geisel de Paula
Texto base: Atos dos Apóstolos 24.1-6, 10-16
Paulo então continuou preso, por mais cinco dias, até que desceu a Cesareia uma comitiva de acusadores a fim de pelos meios jurídicos, acusarem Paulo para que este fosse condenado, de preferência à morte. Estavam no grupo os anciãos de Jerusalém, uma liderança considerada, defensores do Judaísmo, com eles Ananias, sumo sacerdote do grupo dos saduceus, nomeado por Herodes e exerceu poder entre 47 e 59 d.C. e foi enviado a Roma para responder por atos de crueldade. Foi ele que ordenou que Paulo fosse esbofeteado em seu julgamento (At.23.2), revelando sua índole ruim; e Tértulo, um exímio orador (retórico) e advogado (procurador), provavelmente um cidadão romano, mas pode ser judeu ou grego, que foi contratado para acusar Paulo diante do tribunal romano. O julgamento provavelmente foi conduzido em grego.
Para que você possa visualizar melhor a cena, pense em um tribunal com um juiz. O sistema jurídico existe desde antes de Abraão, com o Código de Ur-Nammu (2100 a.C.) e o Código de Hamurabi (1750 a.C.), mas essas leis eram colocadas à prova em um tribunal onde uma sentença era lavrada. Todo sistema jurídico ocidental que conhecemos teve a sua influência no sistema jurídico romano e na sua Lei das Doze Tábuas (451 a.C.). Nesse tribunal onde aparentemente não existe um júri mas sim um juiz, o governador Félix. Tértulo fará o papel de promotor de justiça, ou seja, o papel da acusação. As testemunhas são os anciãos de Jerusalém e o sumo sacerdote Ananias. Na defesa, somente Paulo. Ele não tem advogado e nem testemunhas. Ele fará a sua própria defesa.
No início do julgamento, surge a acusação, com o promotor Tértulo, que devia transbordar segurança, opulência e prepotência. Devia estar muito bem-vestido e fazia uso de uma oratória bem refinada. Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi um filósofo alemão ateu que escreveu muitas obras, entre elas, o livro Como vencer um debate sem ter razão, onde ele pondera 38 estratégias para vencer qualquer debate. Schopenhauer não as criou, apenas as compilou. E nós vemos isso no discurso de Tértulo, quase 1800 anos depois. Veja que intrigante são suas proposições a seguir. Ele inicia a sua prédica assim: “Excelentíssimo Félix…”. A acusação é contra Paulo, mas o orador começa a falar da pessoa do juiz, no caso, Félix. Elogiar quem pode te beneficiar ou te prejudicar é uma tática tão antiga quanto o tempo. Tértulo puxa o saco de quem pode beneficiá-lo. Ele começa a citar as benesses que a administração de Félix tem proporcionado ao povo, principalmente os judeus. Tértulo manda um nós e um nos no versículo 3, como se ele mesmo fosse judeu, mas no versículo 5 ele parece falar dos judeus na 3ª pessoa. Isso tudo também é uma estratégia de oratória.
Ele chama Félix de pacificador e de perspicaz (que entende com facilidade o que a maioria das pessoas acham difícil perceber; inteligente, sagaz, astuto). Ele também realizou muitas obras que são notórias a todos pelo seu benefício. “Por todas estas coisas – diz ele – somos extremamente gratos”. Em sua fala, há até lugar para um potentíssimo Félix”. É realmente muita bajulação! Outra estratégia argumentativa que Tértulo usa é a de dizer que entende que Félix é uma pessoa muito ocupada e com muitas demandas e que por isso, não irá tomar muito de seu tempo, mas que ele o ouça por apenas um momento. Essa é uma outra argumentação válida, a de que o discurso será rápido e não enfadonho, o que poderia cansar o ouvinte. Pregadores modernos nos dias de hoje usam esse artifício constantemente.
Depois de ter bajulado o juiz, Tértulo parte para o ataque tendo Paulo como alvo. “Temos achado”, ou na versão NVT – “Constatamos”, ou seja, o que vou dizer desse homem não é uma alegação ou um ‘achômetro’, mas a mais pura verdade: “É um perturbador”. Na versão RC ainda está mais explícito: “Este homem é uma peste”. Terrível, não? Um promotor de sedições, um pestífero (TB), alguém que realmente não presta. “E isso está prejudicando os judeus por todo o mundo”. Ora, era exatamente o contrário do que Paulo fazia, pois ele ensinava que os cristãos deveriam se sujeitar às autoridades governamentais. Isso era uma falsa acusação. Schopenhauer ensina: “como último recurso, parta para o ataque pessoal”, e ainda: “Provoque o oponente”.
E então Tértulo continua sua prédica: “É o principal líder da seita (hairesis) conhecida como os Nazarenos”. Era assim que a igreja era conhecida. Os Nazarenos, ou seja, aqueles que seguem o Nazareno, aquele que veio de Nazaré: Jesus Cristo! Provavelmente, ao falar isso, Félix sabia de quem ele estava falando. Ao não citar o nome, ele faz isso de forma intencional, para não dar crédito a quem não deve, na opinião dele. Schopenhauer ensina: Generalize as afirmações de seu oponente”. Foi a mesma coisa que o mestre da Lei respondeu a Jesus sobre quem era o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores. O doutor da Lei deveria responder: o samaritano, mas para não dar ibope ao inimigo, ele simplesmente disse: ‘o que usou de misericórdia para com ele’. Pura argumentação dialética. Outros nomes usados para designar os cristãos no livro de Atos dos Apóstolos são: discípulos, irmãos, santos, crentes, cristãos, a igreja, a comunhão (koinonia) e aqueles do “Caminho”.
Dito um resumo curto da vida do acusado, ele podia passar para a acusação formal, ou seja, o que ele tinha feito para estar ali sendo julgado agora. A acusação era de que ele havia intentado profanar o templo. Veja que a acusação dos judeus não é a de profanar, mas sim de tentar profanar. Trófimo, um cristão gentio, estava com Paulo em Jerusalém mas isso não quer dizer que Paulo o levou para o templo. Os acusadores chegaram à conclusão errada a partir de duas premissas verdadeiras. Eles estavam equivocados e não podiam provar essa acusação. Schopenhauer ensina: “Prepare o caminho mas oculte a conclusão”.
O Comentário Beacon observa assim essa passagem: “É importante perceber que o assunto da entrada de um gentio além do assim chamado Pátio dos Gentios era extremamente sério. Normalmente, os judeus não tinham a permissão dos romanos para levar ninguém à morte. Mas uma lei dos judeus, a de que nenhum gentio deveria ter permissão para entrar na corte interior do templo, era reconhecida pelas autoridades romanas, e qualquer pessoa que a transgredisse era punida com a morte, mesmo que fosse um cidadão romano, Assim, Paulo não estava isento. Mas se a acusação fosse verdadeira (não o era), seria Trófimo, e não Paulo, quem deveria ser morto”.
Tértulo continua: Por conta disso haviam prendido a Paulo e por isso ele seria julgado pelos seus pares (os judeus), se não fosse o tribuno (Cláudio) Lísias, que o arrebatou das mãos deles com grande violência (ele acusou Lísias do erro que eles próprios estavam cometendo contra Paulo, espancando-o. Na verdade Lísias salvou Paulo de ser linchado pelos seus pares. Issao é vitimização). Isso os levava até aquele tribunal. Para fechar o seu discurso, Tértulo pediu que o próprio Félix inquirisse a Paulo, para saber se as coisas não eram realmente assim. Tértulo estava bem confiante de que a estratégia era boa e que o resultado iria favorecer a si mesmo e aos judeus que acusavam Paulo. Então, os judeus que o acompanhavam ratificaram tudo aquilo que Tértulo disse, dizendo que as coisas eram realmente do jeito em que foram ditas. Todos eles consentiam de que Paulo era culpado das acusações contra ele feitas.
A defesa de Paulo
Paulo não tinha advogado para o defender, por isso ele fez a sua autodefesa (‘eu respondo por mim’). Ao contrário da excessiva adulação de Tértulo, Paulo fez uma introdução simples e cortês. Ele iniciou a sua fala assim que o governador lhe permitiu que falasse. Félix já estava vivendo como governador na Palestina há cerca de oito ou nove anos. Havia substituído Cumano, um grande honra ele mesmo, um escravo liberto, ou seja, tinha vindo da pobreza. Isso acabaria sendo um ponto favorável a Paulo. Paulo então relata que chegou a Jerusalém a cerca de doze dias apenas, um tempo muito curto para quem era acusado de promover um levante. Ele chega no dia 1º, no dia seguinte se encontra com Tiago, irmão do Senhor, cinco dias para formalizar o voto que Tiago propôs, audiência perante o conselho, no dia seguinte à conspiração. No 10º dia Paulo chegou a Cesareia e três dias depois Paulo já está diante de Félix. Isso seria pouco tempo para liderar uma revolta daquelas proporções de que estava sendo acusado, a ponto de interferir no próprio Império Romano.
“Meus acusadores não me encontraram discutindo com ninguém no templo, nem causando tumulto em nenhuma sinagoga, nem nas ruas da cidade” (At.24.12 – NVT) – disse Paulo. “Eles não podem provar as acusações que fazem contra mim”. Na verdade quem começou o tumulto foram os seus acusadores e não Paulo. O que Paulo está dizendo é que até agora, seus acusadores só disseram mentiras. A palavra de um contra o outro (ou os outros, a maioria). A verdade deveria ser provada através do olhar, e acredito firmemente que Paulo estava em vantagem. Como diz o próprio Paulo no texto bíblico em (2Co.13.8): “Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade”. Paulo não só pregou mas viveu isso.
Agora Paulo também sabia reconhecer as verdades ditas até mesmo pelos seus acusadores. “Reconheço, porém, que sou seguidor do Caminho, que eles chamam de seita”. Em outras palavras: ‘eu sou cristão, mas não sou herege’. “Eu adoro o Deus (YHWH) de nossos antepassados e creio firmemente na Lei judaica (Torá) e em tudo o que está escrito nos Profetas (Tanach)”. Em outras palavras, a minha Bíblia é igualzinha a deles. E mais: “Tenho em Deus a mesma esperança destes homens, de que ele ressuscitará tanto os justos como os injustos”. Esta era uma crença que ele partilhava com os fariseus (visto que havia sido um deles), embora eles acreditassem mais fortemente na ressurreição dos justos do que na dos injustos. Nesta ocasião, não deveria haver muitos saduceus, com exceção do sumo sacerdote Ananias, pois senão levantaria contenda, como no capítulo anterior (23).
Paulo conclui a primeira parte de seu discurso dizendo que “procurava sempre manter a consciência limpa diante de Deus e dos homens”. Isso com certeza, exigia dele severa disciplina moral, não somente em uma prática constante e habitual, mas um esforço metódico e sistemático. Consciência é algo muito poderoso. É a diferença entre seguir em frente mesmo tropeçando do que aceitar que as coisas são como são. Eu ouso dizer que Deus não quer suas desculpas, e sim o reconhecimento de que você é falho e de que precisa de ajuda e socorro.
Paulo então revela a razão de voltar para Jerusalém: trazer o dinheiro arrecadado de ofertas para auxiliar seu povo. Judeus da Ásia o acusaram e não estavam ali presentes no julgamento. Quando Paulo mencionou novamente que estava sendo julgado por causa na crença da ressurreição dos mortos, Félix interrompeu e disse que esperaria Lísias chegar para tomar uma decisão. É nos informado de que ele tinha um grande conhecimento sobre o Caminho, o que é singular (sua esposa, Drusila, era judia). Manteve Paulo preso, com liberdade para receber visitas e amigos e assistir em suas necessidades. Ouviu novamente Paulo pregar o Evangelho, mas não gostou de saber todo o Evangelho (At.24.25). Suas intenções eram outras, assim como Pilatos (At.24.26 e 27).
Bibliografia
GABY, Wagner. A Igreja dos gentios – Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos. Editora CPAD. Rio de Janeiro. 2026. 1ª edição.
PENNA, Romano. As primeiras comunidades cristãs – Pessoas, tempos, lugares, formas e crenças. Editora Vozes. Petrópolis – RJ. 2017.
BEITZEL, Barry J. Novo Atlas da Bíblia – Geografia – Arqueologia – História. Edições Vida Nova. São Paulo. 1ª edição. 2017.

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